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PEC das Domésticas pode favorecer outros trabalhadores

Em 1996, com 19 anos, Rosenilda Ferreira da Silva (foto) deixou uma carta para a tia, com quem morou por um mês em Porteirinha, Norte de Minas, avisando que iria atrás do sonho de viver na cidade grande. Nascida na vizinha Rio Pardo de Minas, filha de um borracheiro e uma cozinheira, Rosenilda se cansou de esperar pela autorização dos pais para morar em Belo Horizonte. Quando foi ajudar a tia no período de resguardo, encontrou a sua chance. De posse apenas do telefone do trabalho de um parente que morava na capital e uns trocados que pegou emprestados da tia – e prometeu, na carta, devolver assim que encontrasse um emprego –, ela desembarcou na rodoviária de BH disposta a aproveitar a primeira oportunidade de emprego que surgisse. Foi como cuidadora, mas de um bebê, que ela deu início à vida profissional. Hoje com 35 anos, ela se divide entre os cuidados de um idoso durante a semana e, aos sábados e domingos, na arrumação da casa em que viveu e trabalhou por 15 anos. “Não tenho onde ficar. Alugar um barracão ficaria muito caro. Quando comecei a trabalhar no meu emprego atual, minha ex-patroa ofereceu o serviço para eu ter onde passar o fim de semana.” Rosenilda confessa estar receosa sobre como será daqui para a frente, já que ainda não conversou com os patrões. Ainda assim, ela torce para que a PEC a ajude a ter sua independência. “Só sei que quero ter a minha casa e poder cuidar dela.” 

Babá qualificada 

Aos completar 20 anos, a babá Maria da Conceição dos Santos (foto) viu no serviço doméstico a chance de construir uma vida longe da miséria e do sofrimento que a rodeavam em Jenipapo de Minas, no Vale do Jequitinhonha. “Quando a gente sai do interior e vem para a capital, vê que existem muitas oportunidades, entre elas estudar”, conta. Filha de uma gari que criou quatro filhas sem a ajuda paterna, Maria chegou à capital focada no objetivo de progredir na vida, mas teve de dar preferência ao trabalho. “Comecei trabalhando como doméstica. Depois, trabalhei como cuidadora de idosas e como babá”, conta. No ano passado, em função da saúde, precisou se afastar do trabalho. Nesse intervalo, concluiu os estudos e se formou como técnica em enfermagem. Hoje, atua como babá autônoma. “Estou cobrindo uma colega, mas continuo procurando uma outra posição, fixa, em casa de família, para cuidar de crianças”, diz. A opção, segundo ela, é justificada pelos bons salários pagos pelos patrões, às vezes melhores que os pagos por empresas. Cheia de esperanças e boas expectativas, depois do anúncio da PEC, Maria acredita que voltou para o mercado na hora certa. “Tenho um curso que me diferencia das outras profissionais e isso pode me ajudar a conseguir um trabalho”, afirma. “Vou ter condições de voltar a estudar e fazer uma faculdade.”

Motor da família

O currículo de Rogério Luiz Pinheiro (foto) , de 45 anos – 20 deles como motorista – inclui trabalhos em transportadoras e outras empresas, mas é em ambientes residenciais que ele se sente mais realizado. “Sempre gostei de trabalhar com famílias, especialmente quanto tem crianças. As relações sempre foram marcadas por muito respeito e carinho. ”Ainda assim, ele celebra os direitos que a categoria vai passar a usufruir com a aprovação da PEC. “Vi muitos colegas bons de serviço deixarem o emprego como motoristas particulares por não ter os mesmos benefícios que outros trabalhadores. Todos trabalhavam muito e não tinham direito ao FGTS, por exemplo. Uma hora isso cansava”, conta Rogério. Separado e pai de um garoto de 19 anos, ele enxerga no trabalho o caminho para oferecer mais oportunidades ao filho. “Chega uma certa idade em que o importante é cuidar da família.” Colega de profissão de Rogério, Sivaldo Ferreira, de 48, é filho de lavradores de Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, começou a trabalhar como motorista particular em 2008, mas por duas décadas a sua rotina era cuidar da casa que ele mesmo ajudou a construir. “Com 23 anos, vim do interior para Belo Horizonte e o primeiro trabalho que consegui foi na construção civil. Os donos da casa gostaram de mim e, quando ela ficou pronta, me chamaram para ser caseiro. ”Hoje com casa própria, ele transporta os filhos do atual patrão e já sabe como é ter seus direitos reconhecidos. “Meu FGTS já é recolhido e sempre recebi pelas horas extras. É bom saber que isso também vai ser feito com outros trabalhadores.” 

Na grama das mansões

Natural de Urucuia (MG), o jardineiro Uelton Barbosa de Brito (foto) , de 25 anos, mantém uma rotina de trabalho em contato com a natureza. A partir das 7h começa a percorrer os 20 mil metros quadrados da chácara na qual foi contratato no Setor de Mansões Park Way, em Brasília. Com bastante cuidado, rega as plantas, limpa a horta, apara o gramado e ainda tem tempo de alimentar os cachorros da casa. Há três meses em Brasília, deixou a cidade natal em busca de uma melhor remuneração. O salário em Minas Gerais era de pouco mais de R$ 600. Agora, passou a receber R$ 800. Atento às mudanças que a PEC das Domésticas trará para ele, está ansioso para ter direito ao FGTS. “Vou ter direito a uma poupança”, festeja. Ele, que estudou até a 8ª série, diz gostar do que faz, mas sabe que há preconceito por parte de muitas pessoas. “Essas pessoas vão parar de nos desrespeitar. Teremos direitos. Isso é um avanço grande”, completa. O também jardineiro Jair Pinto de Oliveira, de 47 anos, ainda tem dúvidas sobre como será calculada e controlada a jornada de trabalho e as horas extras. Mesmo sem uma resposta imediata, está contente com a igualdade de direitos conquistados, uma vez que deixará de ser motivo de piada entre os vizinhos em Ceilândia. “Eles ficam gozando com a minha cara porque não recebia FGTS e nem a diferença pelo que trabalhava a mais. Agora isso vai acabar e meu patrão disse que vamos sentar nos próximos dias para conversar sobre um contrato.” 

Salvação no jardim


Nascido em Presidente Bernardes, o jardineiro José Matheus Jacinto (foto) , de 49 anos, saiu há oito anos do município de pouco mais de 5 mil habitantes, na Zona da Mata, com destino a Belo Horizonte, para deixar o trabalho na roça. “Comecei a visitar a capital para levar um dos meus filhos ao médico, até que decidi ficar aqui definitivamente”, conta. Dono de uma história cheia de percalços, entre eles a separação da esposa e a responsabilidade de cuidar sozinho de cinco filhos com idades entre 9 e 16 anos, ele conta que o trabalho em residências surgiu como oportunidade, depois de ter que abandonar o emprego de pedreiro. “Não tinha como trabalhar fichado com cinco crianças para cuidar. Comecei a trabalhar com uma senhora e ela me ajudou muito arrumando outras casas”, conta. Hoje prestando serviço em seis casas diferentes, ele cuida do jardim, limpa a piscina, lava o carro e, quando o patrão viaja, faz as vezes de caseiro, vigiando a casa. “Também limpo os vidros e faço o que aparecer de serviço na casa”, lembra. Ele recebe, ao todo, R$ 1,5 mil por mês e tem o INSS rateado por quatro dos seis patrões e revela que ainda não sabe como ficará a sua situação por não ter um emprego fixo. Confessa, no entanto, que vê na PEC a condição de conseguir mais estabilidade. “Minha casa ficou com a ex-mulher e hoje moro de aluguel. Como cuido sozinho dos meus filhos, preciso de um lugar para morar e o FGTS, por exemplo, poderia me ajudar a ter minha casa de novo”, reforça. 

A vida passada a ferro

A passadeira Luzia Maciel (foto), de 58 anos, chega a prestar serviços para cinco famílias. Há 11 anos na profissão, afirma gostar do que faz. “Amo passar roupas. Acho que as pessoas ficam satisfeitas com o resultado”, comenta. O valor da diária varia entre R$ 80 e R$ 90, mas sente falta de benefícios. “Não tenho 13º, FGTS, nem férias. E, se o patrão viaja ou dispensa o serviço do dia, fico sem dinheiro”, ressalta. Ela, que gostaria de ter mais direitos como passadeira, vê na PEC das Domésticas um avanço para a categoria. “É mais do que merecido. Sempre prestamos um serviço até melhor do que fazemos nas nossas próprias casas”. Apesar das dificuldades enfrentadas, Luzia não lamenta a opção de trabalho escolhida desde quando começou a vida de diarista, há 22 anos. “A casa onde moro, construí com o meu trabalho de diarista. Só tenho a agradecer a Deus por isso”, vibra ela. No primeiro emprego, Luzia ganhava cerca de R$ 35 por dia trabalhado. O valor, segundo ela, era maior do que o pago a outras diaristas. “Minha patroa reconhecia o meu trabalho”. Nascida em Caratinga(MG), chegou em Brasília, em 1981. Mãe de duas mulheres e um homem, se orgulha de ter ajudado na formação do filho. “Ajudei a pagar a faculdade dele. Hoje, ele é administrador em uma empresa de tecnologia”. Com sentimento de realização, ela tem como sonho reformar a casa. “Com certeza vou conseguir, com trabalho duro e muita dedicação”.

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